Teste rápido: se você perguntar agora para a(s) sua(s) criança(s) o que ela(s) acha(m) de vocês irem a um parque ou praça, tirar as meias e os tênis, estender uma toalha no chão embaixo de uma árvore para brincar, jogar bola, ler ou simplesmente conversar respirando o ar puro da natureza, qual é a reação da garotada?
Tempo!
Qual foi a reação dela(s)? Animação a mil? Desânimo depressivo? Corrida pela casa para juntar todas as coisas necessárias? A(s) criança diz(em) que só vai(vão) se for(em) arrastada(s)?
É bem possível que as possibilidades negativas de um convite dessa natureza se verifiquem em um maior número de famílias que gostaríamos de reconhecer. Talvez um convite para uma maratona de séries de aventura ou de jogos digitais tivesse muito mais apelo entre os pequenos.
Muitos podem advogar que, em razão da pandemia, as crianças precisaram ser isoladas em suas casas em nome de sua proteção. De acordo Betina Neves, em artigo para a Revista Gama (2021), esse enclausuramento gerou um verdadeiro surto de miopia entre crianças em razão do excesso de atividades dentro de casa, normalmente envolvendo o acesso maciço a games. Sem dúvida, isso ocorreu. Mas será que o problema só começou com o advento da COVID-19?
Sejamos honestos: a oferta brutal e interminável de jogos virtuais, o surgimento de várias plataformas de streaming, o aumento da violência nos espaços urbanos nas grandes cidades e a diminuição progressiva de espaços verdes de lazer nesses mesmos espaços são problemas muito mais antigos. Muito antes do surto do vírus já se falava em “crianças que acham que a galinha nasce no balcão do supermercado” e “crianças de prédio”; em outras palavras, não é de hoje que a maioria considerável de nossas crianças vivam em uma condição de “déficit de natureza”, termo cunhado pelo jornalista americano Richard Louv em sua obra “A última criança na natureza: Resgatando nossas crianças do transtorno de déficit de natureza” (Aquariana, 2016), indicada no artigo anteriormente citado de Betina Neves. Com base em vários estudos, o livro do escritor estadunidense defende veementemente que a criança que tem contato constante com a natureza “dorme melhor, come melhor, se exercita melhor e tem relações afetivas melhores” (Eisentein, citada por Neves, 2021). Por outro lado, de acordo com Neves (2021), a ausência dessa interação tem consequências profundamente graves: “agressividade e alterações bruscas de humor, até ansiedade, terror noturno, obesidade, déficit de atenção e hiperatividade”.
A criança que tem contato constante com a natureza “dorme melhor, come melhor, se exercita melhor e tem relações afetivas melhores”
E esses problemas só vêm sendo agravados pelo concreto e pelo aço que cada vez mais cerca nossas vidas. Terrenos e mais terrenos com áreas verdes são cada vez mais cobiçados por construtoras e incorporadoras para a construção civil; parques e praças são cada vez menos prioridades de governos municipais e estaduais, e os que existem muitas vezes sofrem com a falta de manutenção e segurança. Cidades como Curitiba, a chamada “Cidade Verde” com seus 60 m2 de área verde por pessoa (Curitiba, 2025), vai na contramão dessa tendência, inclusive pela cultura de sua população, que acessa constantemente espaços verdes de lazer, ainda mais com o pós-pandemia. Contudo, trata-se de uma gota no oceano – cidades como São Paulo contam com 2,6 m2 de área verde por habitante, e a distribuição desses espaços é muito desigual: bairros de classe média-alta contam com 5,25 m2 de espaço verde por habitante, enquanto regiões de periferia dispõem apenas de 0,29 m2. Nessa disputa, o contato com a natureza só perde terreno (Neves, 2021).
Como resolvemos isso? Obviamente, estimular o acesso a espaços naturais é uma parte da solução. Contudo, como motivar uma infância já tão contaminada por telas e outros tantos estímulos digitais? Uma resposta possível é o acesso motivado à natureza. Como assim? Simples: vamos utilizar a motivação da ludicidade e dos jogos à favor da interação com a natureza!
E que melhor recurso para fazer isso senão o da literatura infantojuvenil? Você consegue pensar em ferramenta mais eficaz para a educação ambiental? Ela permite que as crianças entrem em contato com fenômenos naturais, ecossistemas, ciclos da vida, animais e suas relações com o ambiente. Por meio de uma linguagem acessível, obras desse nicho podem abordar as consequências das mudanças climáticas, a importância da biodiversidade e os prejuízos do desmatamento, tornando conceitos complexos compreensíveis para os pequenos.
Ao se engajar com temas ambientais por meio de histórias, as crianças aprendem sobre a interconexão dos sistemas, as relações de causa e efeito (por exemplo, o impacto das ações humanas na natureza) e as implicações éticas de suas escolhas. Essa abordagem interdisciplinar significa que os livros infantojuvenis que tratam do meio ambiente não são apenas para as aulas de ciências; são meios para desenvolver uma compreensão holística de seu lugar no mundo e de sua capacidade de influenciá-lo.
Em outras palavras, esses livros podem despertar a curiosidade, construir conhecimento fundamental e fomentar um vínculo emocional com o meio ambiente, motivando as crianças a buscarem interações no mundo real e a se tornarem guardiões ambientais.
Tome como exemplo a obra do selo Primeiros Saberes “A natação das minhocas, de Lilian Neves: o texto fala de seres com os quais, convenhamos, poucas crianças têm contato hoje em dia. De uma forma encantadora e divertidíssima, a autora se aprofunda em um tema ambiental fundamental (a fertilidade do solo associada à presença de minhocas na terra), cria vínculos importantes de causa e consequência em relação ao assunto (a importância da fertilidade do solo para a agricultura e para os animais) e ainda manda aquela pergunta superinteligente, típica da curiosidade maravilhosa das crianças: “quando o solo é inundado, o que acontece com as minhocas”?
Quer saber o que acontece com esses seres incríveis e fundamentais para a nossa existência e, de quebra, estimular a curiosidade de sua(s) criança(s) para a natureza e suas maravilhas? Leia “A natação das minhocas”!
Referências
CURITIBA (Prefeitura). Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Curitiba Verde. Disponível em: <https://meioambiente.curitiba.pr.gov.br/conteudo/curitiba-verde/756>. Acesso em: 22 ago. 2025.
NEVES, Betina. As crianças e o déficit de natureza. Revista Gama. Disponível em: <https://gamarevista.uol.com.br/sociedade/as-criancas-e-o-deficit-de-natureza/>. Acesso em: 22 ago. 2025.